quarta-feira, outubro 11, 2006

O BOLO SOLADO DO COZINHEIRO LAERTE

É compreensível a reclamação do Laerte Braga, que segue abaixo, mas faltou originalidade à sua técnica, no que se refere ao "modus operandis", para salvar o seu candidato: desacreditar a mídia. Percorrendo a sua linha de pensamento, conclui-se que todo o complexo informativo do País está comprado, e, por aí, toda essa trama sinistra, urdida nos bastidores da política, envolvendo os homens do presidente Lula, há de ser, segundo a visão que ele nos traz, uma gigantesca mentira. Trata-se, como sabido é, de alegação esmolambada, que, como piada velha, tenta fazer algum sucesso apesar da caduquice.

Na sua arenga pseudo-analítica, como que seguindo uma receita de bolo, Laerte buscou o momento certo para colocar a cor dourada na massa Lula, reforçada nos generosos punhados de fermento biográfico, de modo a transformar lama pegajosa em iguaria de excelente apresentação: é quando ele percorre a trajetória do presidente-vítima, do pobre retirante sofredor, que a poder de "muita luta", chega à condição de Presidente da Nação. Sua intenção é clara: associar uma suposta armação da mídia à queda do seu candidato na preferência do eleitor. Enfim: o seu Lulinha Paz e Amor é um santo que, por força das tramas da mídia, despenca do altar. É disso que ele quer nos convencer, enquanto prepara a massa do bolo Lula.

Dentro dessa metafórica colocação, o bolo do Laerte vai ao forno, mas ele não consegue ocultar, por detrás dessa fumaceira onde o seu bolo Lula assa, as caixas e pacotes de certos ingredientes que deveriam estar presentes na massa, mas que sequer foram abertas. Dentre essas caixas, a gente consegue ver, apesar da névoa de fumaça, a mais vistosa: a caixa dos FATOS. A mídia não inventou as cenas que vimos na tela da TV. Tampouco, inventou Pallocis, Dirceus, Delúbios, Silvinhos, Berzoinis e outros, todos eles, amigos próximos e de longa data de um Lula que se diz traído, caindo um após outro, como numa fileira de pedras de dominó. Nenhuma dessas quedas foram inventadas. Foram fatos, que a mídia tratou como deveriam ser tratadas, ou seja, como notícias, e tanto foram verdadeiras, que nenhuma das cenas filmadas foi apontada como montagem das "zelites" ou da oposição. Este e outros ingredientes estão na caixa FATOS, e o Laerte sabe que aqueles ingredientes foram adquiridos no armazém da Dona Mídia. Mas, para que falar da fonte de um produto, se ele não

foi usado na massa? E olhe que a caixa FATOS, que é produzida e oferecida pela Dona Mídia, tem o selo de garantia da Procuradoria-Geral da República; mas Laerte desprezou o produto, porque não confia (ou não convém confiar) na marca.

Podemos ver ainda, por detrás da fumaça do seu assado, alguns outros pacotes de ingredientes, que, tal como aconteceu com os contidos na caixa dos FATOS, o Laerte não colocou na sua massa, e um destes é o pacote Promessas de Campanha. Nesse momento, ocorre de alguém perguntar ao Laerte, o porquê de também não ter usado usado esse produto na massa que está assando, vez que a caixa nem foi aberta.

— Está sem a etiqueta de validade— responde o Laerte com o seu sorriso lógico.

É aí que ocorre a um dos presentes verificar as datas de validade, tanto da caixa FATOS, quanto da PROMESSAS DE CAMPANHA. A caixa FATOS está dentro do prazo de validade, mas, na caixa PROMESSAS DE CAMPANHA, falta realmente a etiqueta, e o que se vê no lugar dela é uma frase, que diz: "o que a gente diz na campanha é uma coisa, mas, quando a gente está no governo, a gente tem que dizer outra (Lula)".

O bolo, em cuja massa não entraram dois ingredientes importantes, uma vez assado, é retirado do forno fumarento, e, aí, constatamos que o bolo solou. Mas o Laerte encontra logo uma explicação:

— A culpa é da Dona Mídia, que só vende produtos de má qualidade no seu armazém. Vou lá para reclamar.

— Mas, Laerte — alertamos — o único produto fabricado pela Dona Mídia são os FATOS, cuja caixa você nem abriu. Você só usou os produtos fabricados pela fábrica PT e, ainda por cima, não usou os ingredientes da caixa PROMESSAS DE CAMPANHA. Vai reclamar de quê?

Mas o Laerte, ainda assim, vai em busca de Dona Mídia para fazer a sua reclamação, deixando-nos imersos na seguinte constatação: nenhum cozinheiro admite que errou na receita.

Net 7 Mares net7mares@oi.com.br


A MÍDIA E A ELEIÇÃO – ALGUMAS LEMBRANÇAS

Laerte Braga

Em 1973 morria num acidente aéreo próximo ao aeroporto de Orly, Paris, um dos mais notáveis intérpretes da música popular brasileira, Agostinho dos Santos. O acidente ocorrera por volta das 7 horas da manhã em Paris, 3 horas da madrugada aqui no Brasil.

A redação da REDE GLOBO no Brasil toma conhecimento do fato em torno de 4 horas da madrugada e o editor de plantão determina que a central de jornalismo em São Paulo vá entrevistar a família do cantor antes que ela soubesse da morte, sobre o que ele fora fazer em Paris. Combina que a notícia da morte chegaria no justo momento da entrevista para que fossem filmadas ao vivo as reações dos familiares.

Uma repórter sai com a equipe e quer saber da filha de Agostinho dos Santos o que o cantor fora fazer em Paris. Dada a resposta, fora cantar no Olimpya, chega, como combinado a notícia da morte e segue-se o histerismo da global. “Olhem a família está traumatizada, vejam o drama, Agostinho morreu” e vai por aí afora.

À noite, como as reações tivessem surpreendido a emissora, a matéria é exibida no JORNAL NACIONAL e segue-se um pedido de desculpas e a comunicação que a jornalista fora demitida.

Um grupo de jornalistas brasileiros no exterior, sabedor das costumeiras mentiradas de VEJA, forja um documento da Academia de Ciências da Inglaterra, sobre uma descoberta revolucionária que permitiria que determinado tratamento fizesse com que as vacas produzissem leite com sabor e colorido. Sabor morango, sabor chocolate e o diabo a quatro.

VEJA publica a notícia. O fato é desmentido pelos jornalistas que contam, em nota oficial, que tudo fora forjado apenas para mostrar que VEJA publica qualquer mentira. Não tem critério e nem tem preocupação com o leitor. O negócio é ou quem paga, ou notícias como a do leite colorido, a notícia sem conseqüências para iludir os leitores de boa fé.

A campanha pelas Diretas Já ganha as ruas do País, comícios juntando multidões acontecem em todas as principais cidades brasileiras e o JORNAL NACIONAL omite. Não noticia. Só o faz quando o general/ditador, Figueiredo, afirma que gostaria de estar num daqueles comícios, mas por enquanto não pode, ou seja, dá o sinal verde e...

Tchan tchan tchan, quando percebe que nas Forças Armadas o grupo favorável a eleição de um presidente civil é majoritário. Aí a campanha das diretas sai na GLOBO.

Em 1988 a rede começa a fabricar Collor de Mello, um filhinho de papai, governador do Estado de Alagoas, ele próprio marajá e que a conselho de marqueteiros caça marajás, mas só os que são contra ele. Um das edições do GLOBO REPÓRTER transforma Collor de Mello em herói nacional e catapulta-o dos salões do cheira cheira para o centro de Brasília.

Quando o processo de impedimento do presidente corrupto e venal começa o JORNAL NACIONAL silencia. O fato só vem a ser noticiado quando José Sarney, ex-presidente, amigo de Roberto Marinho e dono da GLOBO no Maranhão, pega Itamar Franco, um misto de vedete do teatro rebolado com pretensões de síntese e símbolo da ética e leva á casa de Marinho, no Rio, no Cosme Velho.

Sarney apresenta Itamar a Marinho e o então vice declara que nada fará na presidência para prejudicar a GLOBO.

No dia seguinte o JORNAL NACIONAL começa a dar notícias da mobilização popular pelo impedimento de Collor.

Em 2002 a rede enfrenta uma crise financeira e há um pedido de falência numa corte distrital de New York. A GLOBOPAR, uma empresa do grupo que opera a tevê por satélite, está indo para o brejo, são necessários 250 milhões de dólares para que o grupo todo não se veja no buraco, até pelos altos custos do PROJAC. Um projeto megalomaníaco de Roberto Marinho e executado com dinheiro público.

Como encontrasse dificuldades no acerto das “comissões” com FHC, o pessoal do Ministério das Comunicações (Pimenta da Veiga) e o BNDES, lança Roseana Sarney, então governadora do Maranhão, como candidata a presidente. Contrata o IBOPE para transformá-la em líder nas pesquisas e começa a sepultar a candidatura de José Serra.

Uma assembléia geral da GLOBOPAR é convocada, o governo que, através do BNDES tem 5% por cento das ações (A GLOBO tem 90% e a Microsoft tem os restantes 5%) e aceita a decisão de aumento do capital. A parte que toca ao governo é de 250 milhões de dólares e na semana seguinte é aprovada a emenda que permite o capital estrangeiro até um limite nas empresas de rádio e telecomunicações.

Uma operação “secreta” da Polícia Federal é documentada com exclusividade pela GLOBO e Roseana se afasta do páreo. A GLOBOPAR é vendida para o grupo Murdoch.

No meio do caminho, quando percebem que a vitória de Lula é líquida e certa, correm ao petista e no dia seguinte ao da eleição o presidente aparece no JORNAL NACIONAL, um ridículo só, ao lado do robô apresentador Bonner, para mostrar de fato quem manda.

Jornais como a FOLHA DE SÃO PAULO e ESTADO DE SÃO PAULO defendem interesses de grupos paulistas, uma espécie de império financeiro e econômico sustentado pela exploração dos outros estados do Brasil. FOLHA DE SÃO PAULO conseguiu importantes avanços tecnológicos e se transforma num jornal de ponta, sob esse aspecto, o principal porta-voz do tucanato paulista e da FIESP (Federação das Indústrias de São Paulo).

No ESTADO DE SÃO PAULO o debate ainda é sobre se denunciam a princesa Isabel por ter abolido a escravidão e apóiam os que defendem a proclamação da República, ou se ficam com o imperador Pedro II.

VEJA cuida da classe média recheando o denuncismo inconseqüente e muito bem remunerado com notícias mirabolantes como a do leite colorido e com sabor.

E assim o ESTADO DE MINAS, um dos últimos prostíbulos do grupo de Assis Chateaubriand ainda em funcionamento.

E vai por aí afora.

A comunicação no Brasil é pura desinformação. Atende a interesses dos donos do Estado, dos que controlam os “negócios” e trabalha com objetivos de alienar e fazer com que as pessoas acreditem que quem não usa nike não está com nada, isso até a reebock pagar mais, ou dois se acertarem e dividirem o tempo.

Esses interesses, esse controle dos negócios, num País que foi vendido por FHC, principal operador da principal máfia partidária, o PSDB, agrega jornalistas como Miriam Leitão, empregada de bancos, ou Alexandre Garcia, do antigo gabinete militar do governo Figueiredo e demitido por assédio sexual contra funcionária subalterna.

O interesse dessa gente hoje é colocar Alckmin no poder. O cara é o pastel completo para ser mastigado e devorado enquanto acabam de vender o Brasil, passam a escritura e enchem as burras sob as bênçãos da DASLU e da OPUS DEI.

Lula não é necessariamente o mal menor. Alckmin é o mal maior.

Quer ser o gerente a 20%, aceita 10% se os caras pressionarem. Está pronto para cumprir as ordens. Foi um dos governos mais corruptos de São Paulo.

Só que, a mídia não fala de tucano. São os braços dos que pagam e sustentam a mídia.

A chamada grande mídia no Brasil é só um instrumento podre das elites paulistas que, por sua vez, são podres e corruptas, mas sustentam-se da exploração do Nordeste e dos nordestinos. Da exploração do Sul e dos sulistas. Do Norte e dos nortistas.

Procurem saber onde estão as empresas da família Jereissati? As matrizes? Onde opera Carlos Jereissati, irmão de Tasso?

São bandidos próximos da perfeição no mundo do crime.

E descobriram que o drama da novela das oito comove mais que a fome, a miséria, o desemprego que eles provocam.

No meio do caminho tem o JORNAL NACIONAL. Uma pausa para iludir e enganar. E assim o resto.




domingo, setembro 10, 2006

O MESSIAS É O POETA FINGIDOR DO PESSOA


O poema do Messias é mais um "déjà vu" enganador, do tipo "Eu sou isso; eu sou aquilo".


Antes de comentar o “Autocatarse”, do Messias, que me chegou à caixa do Express, preciso da paciência dos meus leitores para um rápido passeio sobre alguns movimentos literários, aos quais a composição está ligada.

Os parnasianos lutaram o quanto puderam contra o lírico. Queriam uma poesia mais abrangente, mais universal... uma poesia que, embora falando do autor, das suas emoções, sonhos etc., ultrapassasse as fronteiras do ego. O belo haveria de ser encontrado não mais no universo interior humano, mas em tudo o que o cerca. Dentro dessa característica, a Poesia, como segmento da Literatura, para poder ocupar o mesmo patamar das demais artes (Música, Teatro, Pintura, Escultura etc.), deveria se voltar ao universal, e não mais apenas à personalidade e sentimentos do autor. Tomando por exemplo a Pintura, podemos ver que, ressalvado os relativos poucos casos de auto-retratos, os pincéis do pintor buscam a beleza, não nos sentimentos do artista, mas na natureza ou nas visões que ele particularmente tem, mas não de si mesmo, senão do externo. Do mesmo modo, acontece na Música e nas demais artes. Ora! Como poderia então a Poesia posicionar-se como arte, se, ao invés de exteriorizar-se como as demais, permanecia recolhida no interior do autor? Por outro lado, se as demais artes percorriam o caminho de uma determinada técnica, a Poesia deveria ter também a sua própria. Daí, adveio o apego dos parnasianos à forma, onde a rima, a métrica perfeita, a tonicidade e a constituição (o soneto, por exemplo deve ter 2 quartetos e 2 tercetos) funcionariam como elementos técnicos da Poesia. Somente assim, atendendo àqueles dois aspectos presentes nas demais artes (temas universais e técnica), a Poesia poderia ser chamada de arte. Em síntese, era esta a postura filosófica dos parnasianos. Decretaram, desse modo, o fim do romantismo; da exacerbações líricas; dos exageros passionais; da dissimulação, tão bem denunciada nos versos de Fernando Pessoa:

"O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm."

Todavia, por razões de natureza humana, o ego não se submeteria jamais à imposição parnasiana, e a resposta não tardou, vindo nas letras dos simbolistas, onde aquela interiorização tão combatida pelos parnasianos chegou, no Simbolismo, às profundezas da alma humana, e quase sempre, com as cores fortes do romantismo. Vejamos um exemplo em Cruz e Souza:

Ó meu Amor, que já morreste,
Ó meu Amor, que morta estás!
Lá nessa cova a que desceste
Ó meu Amor, que já morreste,
Ah! Nunca mais florescerás?

Ao teu esquálido esqueleto,
Que tinha outrora de uma flor
A graça e o encanto do amuleto
Ao teu esquálido esqueleto
Não voltará novo esplendor?

Passando pela anarquia poética do Movimento de 1922, espécie de "casa de mãe joana", que admitia tudo na composição poética gráfica, surgiu, enfim, lá por volta de 1945, o neoparnasiano ou neo-simbolista: o retorno aos preceitos da forma poética (rima e métrica), sepultando de vez a liberdade dos versos brancos (sem rima), tão festejados pelos moderninhos de 22, e dando ao artista plena liberdade para transitar por onde bem entendesse, mantendo, no entanto, a técnica das formas (rima e métrica). Evidente que esse novo movimento, privilegiando o ego, acabou por produzir uma enxurrada de clichês poéticos, onde o "Autocatarse", do Messias, comparece aqui como um bom exemplo. O "Eu sou isso; eu sou aquilo", sem compromisso algum com a verdade, é uma portal gigantesco, por onde o autor pode dizer o que bem quiser, abrindo para si, portanto, um manancial formidável de riqueza vocabular. A beleza nesse tipo de composição há de ser encontrada, então, não nos falsos sentimentos do autor, mas, sim, na construção bem cuidada, na melodia dos versos e, principalmente, na chave de ouro, que é representada pelo fechamento coerente com o texto, associado com o surpreendente. Messias conseguiu esse efeito de forma magnífica:

E quando minha insana sensatez
transforma uma metade em poesia,

minha metade gente balbucia
os versos tolos que a outra fez

Rigor formal dos parnasianos, somado ao lirismo profundo dos simbolistas, deu como resultado o neoparnasianismo, patente na composição do Messias. O poema dele é mais um "déjà vu" enganador, do tipo "Eu sou isso; eu sou aquilo"; mas... e daí, se o ritmo perfeito dos decassílabos, a musicalidade das rimas, e o "enjambement" preciso, conseguidos por ele na sua composição, suscitam poesia no espírito do leitor? Ora! Se "o poeta é um fingidor", que se dane a verdade, se, nela, a poesia não estiver presente; e viva a “dor” do Messias, que pode ser lida no seu poema abaixo:

Autocatarse

Messias

Eu sou meio poeta meio gente.
Metade igual, metade diferente;
uma normal, outra defectiva.
Eu sigo uma via alternativa

para sobreviver à realidade:
Faço de conta que sou a metade
que vive a poesia, alienada.
Eu sou quase poeta, quase nada,

que vez por outra tem a ousadia
de ser poeta e gente de uma vez.
E quando minha insana sensatez
transforma uma metade em poesia,

minha metade gente balbucia
os versos tolos que a outra fez.


segunda-feira, setembro 04, 2006

LINHAÇA É ÓLEO, E GRAMÁTICA É ÁGUA.

O Jorge Linhaça foi modesto quando falou de ousadia e heresia, porque o que fez, tanto no soneto, quanto na crônica, comentada abaixo, vai muito além disso.


Recebi a visita do Jorge Linhaça na minha caixa postal. Chegou com um pacotaço de letras: cinco poemas e uma crônica, e, para enviar seis obras de uma vez, o remetente, que nunca vi mais gordo, deve pensar que nós, seus destinatários, somos um bando de vadios, que não tendo mais nada para fazer, quedamos enterrados no Express, consumindo dias e noites a ler mensagens.

De dizer que eu e o Jorge Linhaça representamos, um para outro, ilustres desconhecidos. De minha parte, com certeza, por causa do seu sobrenome, vez que, mercê da tão intensa sonoridade presente no mesmo, eu dificilmente o esqueceria. Da parte dele, por conjectura de inapelável probabilidade, hei de, também, ser um incógnito, vez que, soubesse ele do meu hábito de comentar sobre as obras que me enviam, e comentá-las, sempre, com cópias para a comunidade literária internauta, teria tido mais cuidado com o conteúdo do pacote. De qualquer modo, visto o alerta que faz no preâmbulo do seu dueto com Florbela Espanca...

"Tá bom, sei que meia duzia vai achar ousadia,

outros tantos ainda considerarão uma heresia"

... devo também cogitar que, ao chegar à minha porta virtual, sabia bem dessa minha desinteressada e altruística postura de sempre atender bem aos que me buscam, para receber atenção ao que escrevem. Como tal conduta de atenção é uma raridade, o que eu já disse na crônica anterior repito agora: os meus comentados devem estar sempre muito gratos por eu manifestar a minha opinião sobre os seus escritos, e nem devem esquentar com o fato de eu enviar cópias dos meus comentários à comunidade literária, porque sabem, de antemão, que os erros cometidos por um são erros cometidos também por muitos; logo, se dou uma ajudinha a um, por que não ajudar também os outros? Por aí, por mais ácido que seja num comentário, por razões óbvias, hei sempre de contar com a compreensão dos comentados. Nesse caso, o prelúdio do Jorge, visto acima, estaria funcionando como escudo de palha a defendê-lo das prováveis e esperadas críticas que poderiam desabar sobre o seu exercício poético. Se assim é, menos mal. A pancada não doerá tanto, ainda mais, depois de vaselinada que acabei de passar. Vamos ao comentário então:

Tomando logo por base o seu prefácio, lido acima, o Jorge foi modesto quando falou de ousadia e heresia, porque o que fez, tanto no soneto, quanto na crônica, comentada abaixo, está além disso. A composição que fez em homenagem à Espanca é fraca: dá uma solene banana à pontuação, sem contar o ritmo claudicante que imprimiu aos versos, que, sem métrica regular, transitam pela composição, ora, se alongando mais para a margem direita; ora, freando antes, assim como quem toca uma manada de porcos. Também o fechamento — se é que existe — além de pueril, é desleixado, tanto na ortografia, onde o "quanto", em nome da concordância, reclama o "s" final, quanto na pontuação: o ponto de interrogação não compareceu no último verso. As rimas apareceram — pelo menos, elas; né? — mas, sabe Deus como: vestidas com os trapos comuns do Particípio ("enaltecida", "perdida" e outras idas) e calçadas nos velhos chinelos dos oxítonos ordinários ("dor", "clamor", "amor"... — Ai! Que horror!).

No mesmo pacotaço, Jorge traz uma obra (O Rabino e o Menino), onde se apresenta como cronista, mas melhor teria feito, se tivesse deixado o teclado em descanso. Ora! se, como poeta no dueto com Florbela, foi um pato manco, perdido entre cisnes; como cronista, virou um urubu medonho, a cutucar as entranhas de uma Gramática defunta. A pontuação, que andou sumida no poema com a Espanca, aparece bêbeda na sua narração. Na ortografia, esquecido de que nome próprio deve começar com maiúscula, reduziu um topônimo ("higienópolis") a substantivo comum e, entre outras mais barbaridades, dispensou o hífen do verbo pronominal, juntando, no seu "orientalos", o verbo ao pronome oblíquo. O Jorge, conforme diz no seu perfil, é pedagogo, e, por aí, já dá para a gente sentir bem a quantas anda o caos na Educação. Não faria mal, portanto, se buscasse uma faculdade de Letras, para uma urgente reciclagem, um cursinho de extensão ou coisa que o valha.

De resto, a crônica termina num chove no molhado, dizendo que as relações entre pais e filhos são sempre as mesmas em qualquer ponto do planeta. Podia, então, ter colocado um título diferente na narrativa: "Descobrindo a Pólvora", onde poderia ganhar alguns pontinhos na perfeita relação entre título e texto. Ora! Se não tem nada de original ou de enfoque diferente para escrever sobre um tema, para que sacrificar o teclado e o pouco tempo que dispomos?

Como escritor de crônicas; aliás, como escritor de maneira geral, o Jorge não tem, por conseguinte, razão alguma para chegar tão festivo aos nossos correios, abusando de badulaques sonoros e gravuras nos fundos das suas mensagens, onde não falta nem mesmo o abominável rola-tela, essa idiotice cibernética que mais atrapalha do que ajuda, vez que a velocidade de leitura, não sendo igual em todos os leitores, obriga-nos àqueles cansativos cliques na barra de rolagem, para frear ou acelerar o rolamento do texto.

Como escritor, portanto, parece-me um consumado desastre, e, como poeta... Bem; aí, para sorte do nosso Jorge, Florbela Espanca não está mais entre nós, os vivos, porque, se estivesse, veríamos um noviço das letras a correr, espavorido, tendo, no seu encalço, um sobrenome português famoso, doido para reduzir um poetaço a pó; ou melhor, a óleo, e, preferivelmente, de linhaça.

terça-feira, agosto 29, 2006

Poesia do Net

A FESTA DA ILUSÃO

Net 7 Mares



Final de eleição num dia cinzento...

Último dia da festa acabada:

Anjinhos, bailando ao sabor do vento,

Anunciavam a sorte lançada.



Em regozijo com a plebe festiva,

Como de sempre, estiveram presentes

Santos que ofertam, à massa passiva,

A esperança estampada nos dentes.



Envolto em papéis de cores sangrentas,

O que antes se via como quimera

Veio na caixa de promessas bentas:

Vinho "PT" de doze anos de espera.



Na festa, bebeu-se do vinho antigo,

Ninguém quis saber da água, a razão;

E, hoje, a ressaca e, nela, o castigo

No mijo com cor e fedor de traição.

@@@@@@

domingo, agosto 27, 2006

O VALOR DE UM CARIMBO





... antes de falar da obra da Maria Inês Simões, devo ressaltar que, até onde sei, somente eu me ocupo de dar uma resposta àqueles que me enviam as suas composições literárias.


Estou cogitando de lançar um carimbo na Internet Literária, um carimbo que deverá ser usado por certos autores em todas as obras que são enviadas às caixas postais, ou que são postadas em grupos literários ou em sites pessoais. Não encontrei ainda um nome apropriado para esse tipo de sinete, e espero encontrar um no decorrer da crônica; mas cabe aqui uma pergunta: para que serviria esse tal carimbo? Antes de responder à questão ou até para melhor respondê-la, convido os meus pacientes e minguados leitores a analisarem o episódio que me aconteceu há poucos dias. De dizer que não é o primeiro. Já me aconteceram outros, que, inclusive, deram origem a algumas das minhas crônicas, e, para evitar um desnecessário suspense, digo logo que o episódio refere-se àquele exercício que é praticado por quase todos os que escrevem na Internet: o de enviar os seus escritos à comunidade literária. Pois bem; até aí, “morreu o Neves”, como diria o Raymundo Silveira, que adora fazer uso desses chavões. Não há nada de mal em divulgarmos as nossas obras, e, se vaidade é defeito, este é o principal nos artistas, sejam eles de que área for. Por aí, o pintor quer os seus quadros bem vistos em exposições de arte; o literato quer que leiam as suas letras; o cineasta quer os seus filmes em cartaz nos melhores cinemas, e assim acontece com todos os que criam. Logo, não vai aqui nenhuma condenação àqueles que se dedicam a divulgar os seus feitos artísticos, até porque a divulgação é conseqüência lógica da criação. Para fechar o parágrafo, não custa lembrar que os meios de divulgação são, basicamente, três: os autores, ou enviam as suas obras, via mensagem de e-mail, a destinatários, cujos endereços são coletados na comunidade literária; ou postam-nas em grupos de literatura; ou limitam-se a colocá-las em site próprio. Maria Inês Simões, protagonista de episódio referido acima, escolheu o primeiro desses caminhos, o das mensagens, para enviar-me a sua composição, que, para melhor entendimento da crônica, transcrevo abaixo:

... a miúde ...

(Maria Inês Simões)

A vida lhe passava como repetidas formas de espera.
Nas mãos a velocidade de quem procurava palavras-sentimentos.
Nada tinha de especial, a não ser a mesmice história de buscas-eternas.
Encontrava passageiros de sonhos inacabados, enquanto voltava a dormir.
E, acordava-esperança.
Amanhã sempre será o espaço de um tempo, onde o hoje, jamais retorna.
Pensava... Acreditar...


Amanhã talvez...
O tempo cansado de seguir, retorne do passado em repetidos passos.
Ou estagnado com o presente,

resolva dar passagem ao futuro no que há-de-ser.
Eterno.
Perspectivas insólitas. Quimeras.

Em crônicas anteriores, discorri sobre esse exercício divulgador, ocasião em que frisei sobre a importância de comentarmos sobre as obras que são enviadas às nossas caixas postais, de modo a atender às naturais expectativas do autor remetente. Afinal, se alguém escreve e envia o seu escrito a trocentos endereços, quer, certamente, ser lido, e o único modo possível de provar ao remetente que lemos o seu trabalho é comentá-lo. Visto que comentários ao que escrevemos constituem uma raridade, é de se imaginar que, em acontecendo até mesmo um único, devemos concluir, em homenagem à lógica, que o reparo feito por qualquer leitor há de ser recebido festivamente pelo autor do texto, pouco importando se o comentário é azedo ou doce. Afinal, temos, nas palavras do comentarista, a certeza de que pelo menos um dos leitores deu atenção ao que escrevemos, e, dependendo de como foi comentada a obra, pode até acontecer de sermos brindados com alguma dica interessante que pode nos ajudar a escrever melhor. Mas justamente aí, na recepção ao comentário, é que a “porca torce o rabo” — Arre! Olhem aí o Silveira, o meu Alceu de Amoroso Lima das minhas crônicas rodrigueanas, a me contaminar de novo com os seus clichês.

Prosseguindo e, antes de falar da obra da Inês, devo ressaltar que, até onde sei, somente eu me ocupo de dar uma resposta àqueles que me enviam as suas composições literárias. Não o faço sempre, porque não tenho o poético poder de paralisar todos os relógios do mundo, mas, quando o faço, busco ser o mais sincero possível no meu comentário, venha a obra de estranhos ou de amigos. Agora há pouco mesmo, recebi o poema “Alínea” do Gerson F. Filho; aliás, não é poema; é prosa poética, e o colega certamente desconhece o meu entusiasmo quase nulo em relação a esse tipo de composição, senão, não teria consumido parte do seu precioso tempo em enviar-me coisa que não atende ao meu gosto. Mas a Maria Inês Simões, esta eu posso apostar que sabe muito bem do meu gosto. No entanto, eis que a mesma se acha de me enviar a composição transcrita acima, construída, como podem ver, em versos livres. Ora! Não é novidade alguma, nem para a colega remetente, nem para muitos outros, que, em termos de gosto poético, sou uma consumada múmia. Poesia, para mim, precisa ter, obrigatoriamente, rima, métrica e fechamento. Um poema, na minha conservadora concepção, há de ser, sempre, uma história resumida em versos. Vez que exceções cabem em qualquer regra, sou forçado a admitir que é possível encontrar poesia numa composição de versos brancos, ou seja, sem rimas, e sem compromisso algum com ritmo (métrica), e eu mesmo cheguei a fazer alguns poucos e mal sucedidos experimentos com as tais prosas poéticas; mas para mim, pelo menos, encontrar poesia nesse tipo de obra é quase uma impossibilidade; até porque, ao pegar uma dessas numa mensagem, sinto logo, nas primeiras linhas, que se trata de prosa e, incontinenti, aciono o Alt + F4, seguido de um Delete. É que, tentar encontrar poesia nesse tipo de obra corresponde, em relação ao meu gosto, ao mesmo que “procurar agulha em palheiro” (Droga! Outro estereótipo! Não devo mesmo ler mais as crônicas do Silveira). Ocorre que, às vezes, dependendo de quem escreveu a obra, acabo abrindo uma exceção e leio a bendita prosa de cabo a rabo. Foi o que aconteceu com a composição da Inês. Afinal, a autora da tal prosa ocupa a cadeira 1 da AVBL, sigla que corresponde ao pomposo nome que ela deu ao seu site, Academia Virtual Brasileira de Letras, que congrega em seu quadro um expressivo número de poetas e escritores. Não cabe aqui entrarmos em considerações sobre a legitimidade dessa academia, entrando em exames sobre a forma como foi criada, tampouco se os membros da mesma foram colhidos a laço na Internet, ou se, supostamente, foram selecionados, para, ao serem admitidos na entidade, merecerem o título de acadêmico. Aliás, depois que vi o Paulo Coelho ser convocado para ocupar uma das cadeiras da nossa ABL, acadêmico e joão ninguém passaram a ter, para mim, a mesmíssima importância. Também não tem peso algum em meu julgamento o fato de site tal ostentar o carimbo da UNESCO, vez que, pela quantidade e discutível qualidade dos que estão relacionados no site daquela entidade internacional, dá pra ver logo que os critérios de seleção devem ser bem parecidos com os da casa da mãe joana. O que me levou a ler a obra da colega Maria Inês não foi o fato de ela ser a fundadora ou presidenta ou a dona da cocada preta dentro da tal academia, tampouco pelo fato de a sua AVBL exibir também, tal como acontece até no site do "Eu Sozinho", o logotipo da UNESCO. O que me levou a comentar o seu "a miúde", escrito assim mesmo, onde transforma o advébio "amiúde" numa inventada e inexplicável locução adverbial, foi o fato de, junto com ela, na tal academia, haver essa tal quantidade de amantes das letras, pouco importando se são ou não acadêmicos; e, em consideração a eles, e não a uma Maria Inês ou Fulana dos Anzóis, é que resolvi examinar a obra da tácita representante deles. Estabelecido, portanto, esse parâmetro de valores, emiti o seguinte comentário à obra:

Descrição, que pretende originalidade, mas que permanece num labirinto sem solução. Como desgraça pouca é bobagem, faz relação incompreensível com o título e ainda planta vírgulas entre sujeito e verbo, que irritam a Gramática.

Composição bem fraca. Numa escala 0/10, leva 2.

Como de hábito, enviando para a Comunidade Literária. Afinal, há gosto pra tudo.

Ao que a autora Maria Inês Simões respondeu nos seguintes termos:

(rs) o santa ignorância

quando vc vai conseguir enxergar os verdadeiros objetivos?

estuda menino... estuda...”.

Respondi, agradecendo pela inspiração que, na sua resposta, encontrei para a próxima crônica, que vem a ser esta que estão lendo, e sequer comentei sobre a sua exortação a que eu fosse estudar, embora tivesse vontade de perguntar se havia vaga na sua academia, onde eu poderia aprender interessantes e sensacionais regras de pontuação e engenhosas formas de criar locuções. Mas foi ali, na sua desengonçada resposta, que surgiu a idéia daquele carimbo, cujo nome eu não conseguia criar, mas que, agora, acabei de encontrar: INCOMENTÁVEL. Os raimundos silveiras, as marias inês e todo os que, como os primeiros, se acharem os bambas das letras, as supremas excelências no que e no modo como escrevem, poderão, então, fazer uso do carimbo INCOMENTÁVEL na margem superior do texto, ficando livres de qualquer reparo. Ainda que, a exemplos dos silveiras, encham as suas crônicas de chavões e dêem a elas um fim abrupto ou sem criatividade, ou que, no caso das inês, agridam a Gramática, plantando vírgulas a torto e a direito, inclusive entre sujeitos e verbos, e componham versos que não têm compromissos algum com técnicas de construção poética, estarão, no uso daquele sinete, protegidos contra qualquer tipo de menosprezo. Vejam bem o valor do carimbo. Por ele, ficaremos cientes de que obras de determinados autores só admitem confetes.

Os purista do idioma certamente hão de me levar ao cadafalso, destinado aos agressores da Língua, por conta do neologístico INCOMENTÁVEL; mas, aí, apelarei ao princípio da igualdade: se qualquer um pode inventar uma academia não sei das quantas, criada assim como é criado um bloco carnavalesco, que faz base no boteco da esquina, por que não posso, então, criar uma palavrinha, só para dar uma ajudinha aos que, sendo excelentes escritores e poetas, paradoxalmente, não suportam comentários depreciativos sobre as suas “belas” letras? Ah! Dá um tempo; né?


* NET 7 MARES é o pseudônimo registrado de Anselmo Cordeiro, poeta, escritor e cronista literário. - Leia mais sobre o autor

Fonte: Uso autorizado pelo autor e pela organizadora da Comunidade Maytê (clique aqui)