LINHAÇA É ÓLEO, E GRAMÁTICA É ÁGUA.
O Jorge Linhaça foi modesto quando falou de ousadia e heresia, porque o que fez, tanto no soneto, quanto na crônica, comentada abaixo, vai muito além disso.
Recebi a visita do Jorge Linhaça na minha caixa postal. Chegou com um pacotaço de letras: cinco poemas e uma crônica, e, para enviar seis obras de uma vez, o remetente, que nunca vi mais gordo, deve pensar que nós, seus destinatários, somos um bando de vadios, que não tendo mais nada para fazer, quedamos enterrados no Express, consumindo dias e noites a ler mensagens.
De dizer que eu e o Jorge Linhaça representamos, um para outro, ilustres desconhecidos. De minha parte, com certeza, por causa do seu sobrenome, vez que, mercê da tão intensa sonoridade presente no mesmo, eu dificilmente o esqueceria. Da parte dele, por conjectura de inapelável probabilidade, hei de, também, ser um incógnito, vez que, soubesse ele do meu hábito de comentar sobre as obras que me enviam, e comentá-las, sempre, com cópias para a comunidade literária internauta, teria tido mais cuidado com o conteúdo do pacote. De qualquer modo, visto o alerta que faz no preâmbulo do seu dueto com Florbela Espanca...
"Tá bom, sei que meia duzia vai achar ousadia,
outros tantos ainda considerarão uma heresia"
... devo também cogitar que, ao chegar à minha porta virtual, sabia bem dessa minha desinteressada e altruística postura de sempre atender bem aos que me buscam, para receber atenção ao que escrevem. Como tal conduta de atenção é uma raridade, o que eu já disse na crônica anterior repito agora: os meus comentados devem estar sempre muito gratos por eu manifestar a minha opinião sobre os seus escritos, e nem devem esquentar com o fato de eu enviar cópias dos meus comentários à comunidade literária, porque sabem, de antemão, que os erros cometidos por um são erros cometidos também por muitos; logo, se dou uma ajudinha a um, por que não ajudar também os outros? Por aí, por mais ácido que seja num comentário, por razões óbvias, hei sempre de contar com a compreensão dos comentados. Nesse caso, o prelúdio do Jorge, visto acima, estaria funcionando como escudo de palha a defendê-lo das prováveis e esperadas críticas que poderiam desabar sobre o seu exercício poético. Se assim é, menos mal. A pancada não doerá tanto, ainda mais, depois de vaselinada que acabei de passar. Vamos ao comentário então:
Tomando logo por base o seu prefácio, lido acima, o Jorge foi modesto quando falou de ousadia e heresia, porque o que fez, tanto no soneto, quanto na crônica, comentada abaixo, está além disso. A composição que fez em homenagem à Espanca é fraca: dá uma solene banana à pontuação, sem contar o ritmo claudicante que imprimiu aos versos, que, sem métrica regular, transitam pela composição, ora, se alongando mais para a margem direita; ora, freando antes, assim como quem toca uma manada de porcos. Também o fechamento — se é que existe — além de pueril, é desleixado, tanto na ortografia, onde o "quanto", em nome da concordância, reclama o "s" final, quanto na pontuação: o ponto de interrogação não compareceu no último verso. As rimas apareceram — pelo menos, elas; né? — mas, sabe Deus como: vestidas com os trapos comuns do Particípio ("enaltecida", "perdida" e outras idas) e calçadas nos velhos chinelos dos oxítonos ordinários ("dor", "clamor", "amor"... — Ai! Que horror!).
No mesmo pacotaço, Jorge traz uma obra (O Rabino e o Menino), onde se apresenta como cronista, mas melhor teria feito, se tivesse deixado o teclado
De resto, a crônica termina num chove no molhado, dizendo que as relações entre pais e filhos são sempre as mesmas em qualquer ponto do planeta. Podia, então, ter colocado um título diferente na narrativa: "Descobrindo a Pólvora", onde poderia ganhar alguns pontinhos na perfeita relação entre título e texto. Ora! Se não tem nada de original ou de enfoque diferente para escrever sobre um tema, para que sacrificar o teclado e o pouco tempo que dispomos?
Como escritor de crônicas; aliás, como escritor de maneira geral, o Jorge não tem, por conseguinte, razão alguma para chegar tão festivo aos nossos correios, abusando de badulaques sonoros e gravuras nos fundos das suas mensagens, onde não falta nem mesmo o abominável rola-tela, essa idiotice cibernética que mais atrapalha do que ajuda, vez que a velocidade de leitura, não sendo igual em todos os leitores, obriga-nos àqueles cansativos cliques na barra de rolagem, para frear ou acelerar o rolamento do texto.
Como escritor, portanto, parece-me um consumado desastre, e, como poeta... Bem; aí, para sorte do nosso Jorge, Florbela Espanca não está mais entre nós, os vivos, porque, se estivesse, veríamos um noviço das letras a correr, espavorido, tendo, no seu encalço, um sobrenome português famoso, doido para reduzir um poetaço a pó; ou melhor, a óleo, e, preferivelmente, de linhaça.


0 Comentários:
Postar um comentário
<< Home