domingo, setembro 10, 2006

O MESSIAS É O POETA FINGIDOR DO PESSOA


O poema do Messias é mais um "déjà vu" enganador, do tipo "Eu sou isso; eu sou aquilo".


Antes de comentar o “Autocatarse”, do Messias, que me chegou à caixa do Express, preciso da paciência dos meus leitores para um rápido passeio sobre alguns movimentos literários, aos quais a composição está ligada.

Os parnasianos lutaram o quanto puderam contra o lírico. Queriam uma poesia mais abrangente, mais universal... uma poesia que, embora falando do autor, das suas emoções, sonhos etc., ultrapassasse as fronteiras do ego. O belo haveria de ser encontrado não mais no universo interior humano, mas em tudo o que o cerca. Dentro dessa característica, a Poesia, como segmento da Literatura, para poder ocupar o mesmo patamar das demais artes (Música, Teatro, Pintura, Escultura etc.), deveria se voltar ao universal, e não mais apenas à personalidade e sentimentos do autor. Tomando por exemplo a Pintura, podemos ver que, ressalvado os relativos poucos casos de auto-retratos, os pincéis do pintor buscam a beleza, não nos sentimentos do artista, mas na natureza ou nas visões que ele particularmente tem, mas não de si mesmo, senão do externo. Do mesmo modo, acontece na Música e nas demais artes. Ora! Como poderia então a Poesia posicionar-se como arte, se, ao invés de exteriorizar-se como as demais, permanecia recolhida no interior do autor? Por outro lado, se as demais artes percorriam o caminho de uma determinada técnica, a Poesia deveria ter também a sua própria. Daí, adveio o apego dos parnasianos à forma, onde a rima, a métrica perfeita, a tonicidade e a constituição (o soneto, por exemplo deve ter 2 quartetos e 2 tercetos) funcionariam como elementos técnicos da Poesia. Somente assim, atendendo àqueles dois aspectos presentes nas demais artes (temas universais e técnica), a Poesia poderia ser chamada de arte. Em síntese, era esta a postura filosófica dos parnasianos. Decretaram, desse modo, o fim do romantismo; da exacerbações líricas; dos exageros passionais; da dissimulação, tão bem denunciada nos versos de Fernando Pessoa:

"O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm."

Todavia, por razões de natureza humana, o ego não se submeteria jamais à imposição parnasiana, e a resposta não tardou, vindo nas letras dos simbolistas, onde aquela interiorização tão combatida pelos parnasianos chegou, no Simbolismo, às profundezas da alma humana, e quase sempre, com as cores fortes do romantismo. Vejamos um exemplo em Cruz e Souza:

Ó meu Amor, que já morreste,
Ó meu Amor, que morta estás!
Lá nessa cova a que desceste
Ó meu Amor, que já morreste,
Ah! Nunca mais florescerás?

Ao teu esquálido esqueleto,
Que tinha outrora de uma flor
A graça e o encanto do amuleto
Ao teu esquálido esqueleto
Não voltará novo esplendor?

Passando pela anarquia poética do Movimento de 1922, espécie de "casa de mãe joana", que admitia tudo na composição poética gráfica, surgiu, enfim, lá por volta de 1945, o neoparnasiano ou neo-simbolista: o retorno aos preceitos da forma poética (rima e métrica), sepultando de vez a liberdade dos versos brancos (sem rima), tão festejados pelos moderninhos de 22, e dando ao artista plena liberdade para transitar por onde bem entendesse, mantendo, no entanto, a técnica das formas (rima e métrica). Evidente que esse novo movimento, privilegiando o ego, acabou por produzir uma enxurrada de clichês poéticos, onde o "Autocatarse", do Messias, comparece aqui como um bom exemplo. O "Eu sou isso; eu sou aquilo", sem compromisso algum com a verdade, é uma portal gigantesco, por onde o autor pode dizer o que bem quiser, abrindo para si, portanto, um manancial formidável de riqueza vocabular. A beleza nesse tipo de composição há de ser encontrada, então, não nos falsos sentimentos do autor, mas, sim, na construção bem cuidada, na melodia dos versos e, principalmente, na chave de ouro, que é representada pelo fechamento coerente com o texto, associado com o surpreendente. Messias conseguiu esse efeito de forma magnífica:

E quando minha insana sensatez
transforma uma metade em poesia,

minha metade gente balbucia
os versos tolos que a outra fez

Rigor formal dos parnasianos, somado ao lirismo profundo dos simbolistas, deu como resultado o neoparnasianismo, patente na composição do Messias. O poema dele é mais um "déjà vu" enganador, do tipo "Eu sou isso; eu sou aquilo"; mas... e daí, se o ritmo perfeito dos decassílabos, a musicalidade das rimas, e o "enjambement" preciso, conseguidos por ele na sua composição, suscitam poesia no espírito do leitor? Ora! Se "o poeta é um fingidor", que se dane a verdade, se, nela, a poesia não estiver presente; e viva a “dor” do Messias, que pode ser lida no seu poema abaixo:

Autocatarse

Messias

Eu sou meio poeta meio gente.
Metade igual, metade diferente;
uma normal, outra defectiva.
Eu sigo uma via alternativa

para sobreviver à realidade:
Faço de conta que sou a metade
que vive a poesia, alienada.
Eu sou quase poeta, quase nada,

que vez por outra tem a ousadia
de ser poeta e gente de uma vez.
E quando minha insana sensatez
transforma uma metade em poesia,

minha metade gente balbucia
os versos tolos que a outra fez.


segunda-feira, setembro 04, 2006

LINHAÇA É ÓLEO, E GRAMÁTICA É ÁGUA.

O Jorge Linhaça foi modesto quando falou de ousadia e heresia, porque o que fez, tanto no soneto, quanto na crônica, comentada abaixo, vai muito além disso.


Recebi a visita do Jorge Linhaça na minha caixa postal. Chegou com um pacotaço de letras: cinco poemas e uma crônica, e, para enviar seis obras de uma vez, o remetente, que nunca vi mais gordo, deve pensar que nós, seus destinatários, somos um bando de vadios, que não tendo mais nada para fazer, quedamos enterrados no Express, consumindo dias e noites a ler mensagens.

De dizer que eu e o Jorge Linhaça representamos, um para outro, ilustres desconhecidos. De minha parte, com certeza, por causa do seu sobrenome, vez que, mercê da tão intensa sonoridade presente no mesmo, eu dificilmente o esqueceria. Da parte dele, por conjectura de inapelável probabilidade, hei de, também, ser um incógnito, vez que, soubesse ele do meu hábito de comentar sobre as obras que me enviam, e comentá-las, sempre, com cópias para a comunidade literária internauta, teria tido mais cuidado com o conteúdo do pacote. De qualquer modo, visto o alerta que faz no preâmbulo do seu dueto com Florbela Espanca...

"Tá bom, sei que meia duzia vai achar ousadia,

outros tantos ainda considerarão uma heresia"

... devo também cogitar que, ao chegar à minha porta virtual, sabia bem dessa minha desinteressada e altruística postura de sempre atender bem aos que me buscam, para receber atenção ao que escrevem. Como tal conduta de atenção é uma raridade, o que eu já disse na crônica anterior repito agora: os meus comentados devem estar sempre muito gratos por eu manifestar a minha opinião sobre os seus escritos, e nem devem esquentar com o fato de eu enviar cópias dos meus comentários à comunidade literária, porque sabem, de antemão, que os erros cometidos por um são erros cometidos também por muitos; logo, se dou uma ajudinha a um, por que não ajudar também os outros? Por aí, por mais ácido que seja num comentário, por razões óbvias, hei sempre de contar com a compreensão dos comentados. Nesse caso, o prelúdio do Jorge, visto acima, estaria funcionando como escudo de palha a defendê-lo das prováveis e esperadas críticas que poderiam desabar sobre o seu exercício poético. Se assim é, menos mal. A pancada não doerá tanto, ainda mais, depois de vaselinada que acabei de passar. Vamos ao comentário então:

Tomando logo por base o seu prefácio, lido acima, o Jorge foi modesto quando falou de ousadia e heresia, porque o que fez, tanto no soneto, quanto na crônica, comentada abaixo, está além disso. A composição que fez em homenagem à Espanca é fraca: dá uma solene banana à pontuação, sem contar o ritmo claudicante que imprimiu aos versos, que, sem métrica regular, transitam pela composição, ora, se alongando mais para a margem direita; ora, freando antes, assim como quem toca uma manada de porcos. Também o fechamento — se é que existe — além de pueril, é desleixado, tanto na ortografia, onde o "quanto", em nome da concordância, reclama o "s" final, quanto na pontuação: o ponto de interrogação não compareceu no último verso. As rimas apareceram — pelo menos, elas; né? — mas, sabe Deus como: vestidas com os trapos comuns do Particípio ("enaltecida", "perdida" e outras idas) e calçadas nos velhos chinelos dos oxítonos ordinários ("dor", "clamor", "amor"... — Ai! Que horror!).

No mesmo pacotaço, Jorge traz uma obra (O Rabino e o Menino), onde se apresenta como cronista, mas melhor teria feito, se tivesse deixado o teclado em descanso. Ora! se, como poeta no dueto com Florbela, foi um pato manco, perdido entre cisnes; como cronista, virou um urubu medonho, a cutucar as entranhas de uma Gramática defunta. A pontuação, que andou sumida no poema com a Espanca, aparece bêbeda na sua narração. Na ortografia, esquecido de que nome próprio deve começar com maiúscula, reduziu um topônimo ("higienópolis") a substantivo comum e, entre outras mais barbaridades, dispensou o hífen do verbo pronominal, juntando, no seu "orientalos", o verbo ao pronome oblíquo. O Jorge, conforme diz no seu perfil, é pedagogo, e, por aí, já dá para a gente sentir bem a quantas anda o caos na Educação. Não faria mal, portanto, se buscasse uma faculdade de Letras, para uma urgente reciclagem, um cursinho de extensão ou coisa que o valha.

De resto, a crônica termina num chove no molhado, dizendo que as relações entre pais e filhos são sempre as mesmas em qualquer ponto do planeta. Podia, então, ter colocado um título diferente na narrativa: "Descobrindo a Pólvora", onde poderia ganhar alguns pontinhos na perfeita relação entre título e texto. Ora! Se não tem nada de original ou de enfoque diferente para escrever sobre um tema, para que sacrificar o teclado e o pouco tempo que dispomos?

Como escritor de crônicas; aliás, como escritor de maneira geral, o Jorge não tem, por conseguinte, razão alguma para chegar tão festivo aos nossos correios, abusando de badulaques sonoros e gravuras nos fundos das suas mensagens, onde não falta nem mesmo o abominável rola-tela, essa idiotice cibernética que mais atrapalha do que ajuda, vez que a velocidade de leitura, não sendo igual em todos os leitores, obriga-nos àqueles cansativos cliques na barra de rolagem, para frear ou acelerar o rolamento do texto.

Como escritor, portanto, parece-me um consumado desastre, e, como poeta... Bem; aí, para sorte do nosso Jorge, Florbela Espanca não está mais entre nós, os vivos, porque, se estivesse, veríamos um noviço das letras a correr, espavorido, tendo, no seu encalço, um sobrenome português famoso, doido para reduzir um poetaço a pó; ou melhor, a óleo, e, preferivelmente, de linhaça.